Em 31 de outubro é comemorado no país o Dia Nacional da Poesia. A escolha da data, criada em 2015, foi o dia de nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade.

A homenagem tem a intenção de incentivar a produção e leitura dessa manifestação artística tão importante.

Para celebrar essa forma de arte, reunimos 10 poetas e poemas brasileiros super importantes que você precisa conhecer.

1. Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

drummond

Carlos Drummond de Andrade, ou somente Drummond, é considerado o poeta de maior reconhecimento nacional.

Pertenceu à segunda geração do modernismo no Brasil e sua poesia reflete temas do cotidiano, como a vida urbana, o amor, a solidão, as relações humanas e outros assunto que se mantém atuais.

E agora, José?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

2. Mário de Andrade (1893-1945)

mario de andrade

Mário de Andrade foi um dos grandes nomes da cultura brasileira. Ele, além de poeta e romancista, foi pesquisador em diversas áreas, atuando também como crítico, folclorista, musicólogo e ativista.

Fez parte da primeira geração do modernismo, integrando o grupo de artistas que revolucionou a arte nacional e trouxe características próprias do Brasil às produções artísticas.

Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

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3. Manuel Bandeira (1886-1968)

manuel bandeira

Manuel Bandeira foi um escritor essencial e referência na cultura brasileira.

Pertencente à primeira fase do modernismo, sua poesia traz criatividade, uso de versos livres e coloquiais, além de um tom irreverente. Os assuntos abordados por Bandeira estão calcados na vida comum e melancolia.

Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe - d’água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

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4. Cecília Meireles (1901-1964)

cecilia meireles

Cecília Meireles é um dos grandes nomes da poesia brasileira.

Além de poeta, foi jornalista, pintora e professora. Sua produção literária tem traços intimistas, tratando de temas do âmbito social e do universo feminino. Ademais, Cecília dedicou-se também à poesia infantil.

Foi uma escritora que pertenceu a segunda geração do modernismo no país, integrando a chamada "Poesia de 30".

Marcha

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebraram as formas do sono
com a ideia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
-- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga,
é tudo que tenho,
entre o sol e o vento:
meu vestido, minha musica,
meu sonho, meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento...
Não há lagrima nem grito:
apenas consentimento

5. Solano Trindade (1908-1974)

solano trindade

Solano Trindade foi um homem de extrema importância para a cultura brasileira, contribuindo enormemente para dar voz ao povo humilde. Além de poeta, Solano foi também folclorista, pintor, ator, teatrólogo, cineasta e militante político.

Negro e de origem humilde, sua obra reflete sua vida e preocupações sobre questões como a desigualdade e o racismo.

Gravata colorida

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...

Para saber sobre outras personalidades importantes, leia:

6. Ferreira Gullar (1930-2016)

ferreira gullar

José Ribamar Ferreira é o nome de batismo do poeta Ferreira Gullar.

Ele foi um escritor, dramaturgo, tradutor e crítico de arte brasileiro. Personalidade essencial para a cultura nacional, Gullar tornou-se referência literária, sobretudo na chamada "poesia concreta".

Galo galo

O galo
no saguão quieto.

Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.

De córneo bico e
esporões, armado
contra a morte,
passeia.

Mede os passos. Para.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio:
— que faço entre coisas?
— de que me defendo?

Anda

No saguão.
O cimento esquece
o seu último passo.

Galo: as penas que
florescem da carne silenciosa
e o duro bico e as unhas e o olho
sem amor. Grave
solidez.
Em que se apoia
tal arquitetura?

Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora?

Como, porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório?

Eis que bate as asas, vai
morrer, encurva o vertiginoso pescoço
donde o canto rubro escoa

Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito.

Vê-se: o canto é inútil.

O galo permanece — apesar
de todo o seu porte marcial —
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira!

Outro grito cresce
agora no sigilo
de seu corpo; grito
que, sem essas penas
e esporões e crista
e sobretudo sem esse olhar
de ódio,
não seria tão rouco
e sangrento

Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.

7. João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

joão cabral de melo neto

João Cabral de Melo Neto foi um escritor e diplomata pertencente à terceira geração do modernismo no país, a chamada Geração de 45.

O poeta expressava-se com grande rigor estético, ao passo que mantinha a sensibilidade. Sua obra é muito reconhecida, inclusive em outros países, e foi traduzida em vários idiomas.

Morte e Vida Severina é um poema clássico e um legado inestimável à cultura nacional.

Morte e vida Severina

O meu nome é Severino,
como não tenho outro da pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria.
Como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da Serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Para saber sobre as datas comemorativas relacionadas à poesia, leia:

8. Cora Coralina (1889-1985)

cora colarina

Cora Coralina foi uma poeta brasileira inspiradora. Seu nome de batismo era Ana Lins dos Guimarães Peixoto e sua primeira publicação ocorreu quando ela já estava idosa, com 76 anos.

Cora teve pouco estudo, concluindo sua formação até a terceira série do primário, ainda assim produziu uma obra literária preciosa. Os temas presentes na sua poesia têm delicadeza e sabedoria característicos de quem já viveu toda uma vida.

Mulher da Vida

Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.

9. Hilda Hilst (1930-2004)

hilst

Apesar de pouco conhecida do público, Hilda Hilst foi um nome de grande importância da literatura brasileira. Há algum tempo sua obra vem ganhando notoriedade.

Hilda escrevia de forma provocadora e irreverente, abarcando temas profundos e com poemas de caráter transgressor, subversivo e erótico.

Tenta-me de novo

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

10. Adélia Prado (1935-)

adélia prado

Adélia Prado é uma escritora brasileira ligada ao movimento modernista.

Começou a escrever aos 40 anos e foi auxiliada por Drummond, que gostou muito de sua produção literária e a ajudou a publicar. Sua poesia tem um tom crítico, linguagem coloquial e busca ressignificar temas do cotidiano.

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.